Reportagem: Aline Tavares
Fotos: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória e Comunicação Butantan
Esta matéria contou com a contribuição da diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, e do diretor do Escritório de Inovação e Licenciamento de Tecnologia do Butantan, Cristiano Gonçalves. Agradecimento especial ao Centro de Memória do Instituto Butantan.
No Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pela História e pelas histórias que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa, produção e educação científica.
A primeira inovação do Instituto Butantan surgiu junto com a própria instituição, no começo do século XX: a descoberta da especificidade do soro antiofídico, publicada pelo médico sanitarista Vital Brazil no livro A defesa contra o ofidismo (1911). O cientista entendeu que, para combater o veneno de cada espécie de serpente, um soro específico era necessário. A importância do medicamento para a saúde pública brasileira era tamanha, que Vital abdicou dos direitos de sua invenção, doando a patente ao governo do estado de São Paulo. Esse ato permitiu que outras instituições pudessem fabricar os antivenenos, descentralizando um conhecimento valioso que salva milhares de vidas até hoje.
Criado com o propósito de resolver desafios de saúde pública, o Butantan continuou se guiando por essa missão ao longo do século, buscando e entregando respostas para doenças infecciosas como difteria, tétano, coqueluche, tuberculose e hepatite B. Mais recentemente, passou a se dedicar a enfermidades pouco exploradas pela indústria farmacêutica – como as arboviroses, classificadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como Doenças Tropicais Negligenciadas, e que incluem dengue e chikungunya.
Para além da tradicional produção de soros e vacinas, o Instituto manteve o espírito resolutivo herdado de Vital Brazil e acompanhou os avanços tecnológicos do mundo, construindo um ambiente de inovação composto por duas frentes. De um lado, a pesquisa e o desenvolvimento dentro de seus próprios laboratórios, com o estudo de moléculas com potencial terapêutico e biotecnológico e com projetos de desenvolvimento local voltados às demandas de saúde pública. Do outro, o estabelecimento de parcerias e a absorção de tecnologias promissoras em desenvolvimento e tecnologias já existentes, visando capacitar a instituição para desenvolver novos produtos e mantê-la na fronteira da ciência global.
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Acondicionamento de ampolas com soro antiofídico em caixas para distribuição,1982. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)
“O Butantan sempre teve um compromisso muito grande com a entrega. Em todos os momentos de necessidade, entregou vacinas e soros para a população” (Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, pesquisadora e diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan)
O Instituto Butantan é globalmente reconhecido pela produção de soros e vacinas. Desde seus primeiros anos, enquanto se especializava em antivenenos, também produzia imunizantes para prevenir as doenças infecciosas que circulavam no Brasil. Essa atuação tornou-o um dos principais fornecedores de imunobiológicos para o Serviço Sanitário do estado de São Paulo. Assim como acontecia na época com os soros, as vacinas eram produzidas de forma quase “artesanal”. Com o tempo, o Butantan foi modernizando seus processos, visando entregar produtos cada vez mais seguros e eficazes.
A tecnologia de fabricação dos soros é exemplo dessa união entre tradição e inovação, com melhorias contínuas em todas as suas etapas produtivas – desde a extração de veneno e obtenção do plasma hiperimune até os testes de controle de qualidade e a formulação e envase. Até hoje, os soros figuram como o único tratamento específico para envenenamento por animais peçonhentos. “A produção de soros foi uma aposta que funcionou muito bem, com baixo risco tecnológico e alta eficiência para resolver um grave problema de saúde pública da época”, aponta o diretor do Escritório de Inovação e Licenciamento de Tecnologia do Butantan, Cristiano Gonçalves.
Inicialmente voltado aos acidentes com serpentes, motor dos estudos de Vital Brazil, o Butantan foi expandindo sua produção de soros durante a primeira metade do século XX, incluindo em seu portfólio antivenenos para picada de escorpião e de aranha e soros para tratamento do tétano, difteria, raiva e da infecção pela toxina botulínica. A partir da década de 1940, com a construção de um novo prédio para abrigar mais laboratórios (conhecido até hoje pela comunidade interna como Prédio Novo), a possibilidade de aprimorar os processos produtivos foi ampliada.
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Embalagem e ampolas de soro antiofídico produzido pelo Instituto Butantan. Sem data. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)
Até que, nos anos 1990, um novo desafio surgiu: o Butantan foi chamado a atuar para ajudar pessoas que sofriam hemorragias graves, capazes de levar a óbito, após tocarem em lagartas encontradas na região Sul do Brasil. A responsável pelos acidentes era a espécie Lonomia obliqua, que liberava seu veneno por meio do contato com as cerdas, e não havia tratamento específico disponível. Diante da emergência, o Instituto utilizou sua experiência para desenvolver o soro antilonômico, sendo até hoje um dos únicos produtores desse antiveneno no mundo.
“O Butantan foi procurado por um médico nefrologista do Rio Grande do Sul, que vinha recebendo pacientes com síndrome renal desconhecida. Os pacientes relatavam que haviam tido contato com taturanas. Descobrimos que eram quadros de envenenamento, e que o veneno era ‘injetado’ por meio das cerdas da lagarta. A partir do corte das cerdas, foi gerado um extrato utilizado para produzir o soro”, relembra a pesquisadora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, que contribuiu com os estudos sobre o veneno e o seu mecanismo de ação durante o envenenamento.
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Detalhe de lagarta Lonomia, 1997. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)
Em paralelo ao aumento da demanda por soros e vacinas no final do século XX – inclusive para doenças até então desconhecidas, como o envenenamento por Lonomia –, a fabricação de imunobiológicos no Brasil sofria com a escassez de recursos, que dificultava a manutenção e modernização dos processos. A criação de órgãos como o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, em 1981, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 1999, fez nascer um novo cenário regulatório, e os produtores precisavam se adequar a esses avanços. A crise motivou a criação do Programa Nacional de Autossuficiência em Imunobiológicos (PASNI) pelo Ministério da Saúde, em 1985, focado em alavancar a produção por fabricantes locais.
Foi próximo dessa época que o cientista Isaias Raw assumiu a direção do Butantan, entre 1991 e 1997, marcando uma nova era na história da instituição. O pesquisador, que vislumbrava tornar o Instituto um player internacional na indústria farmacêutica, elevou o padrão de segurança e qualidade dos produtos ao implantar o Centro de Biotecnologia, com fábricas automatizadas e desenvolvimento de novos processos para acompanhar os avanços tecnológicos do mundo.

Planta de produção do Centro de Biotecnologia, 1980 - 1989. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)
Para os soros, utilizou o conhecimento base que o Instituto já possuía, e ajudou a estabelecer metas de padronização de processos, além de fortalecer o controle de qualidade e implementar um sistema de processamento de plasma fechado e automatizado. Já no caso das vacinas, foi necessário ir além: era preciso adequar todos os processos às normas regulatórias vigentes e, ao mesmo tempo, continuar atendendo às demandas de saúde pública. O caminho encontrado por Isaias foi estabelecer parcerias com empresas privadas produtoras de vacina, visando capacitar o Butantan para absorver tecnologias já existentes
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Isaias Raw apresenta resultados dos trabalhos realizados no Butantan. 1985 (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)
“A transferência tecnológica foi uma decisão estratégica para continuar abastecendo o SUS e trazer capacitação técnica para o país, sem precisar aguardar anos de pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos” (Cristiano Gonçalves)
Em 1999, Isaias Raw assinou um contrato de transferência tecnológica com a Sanofi, a fim de capacitar o Instituto Butantan para produzir a vacina trivalente contra a gripe localmente e fornecê-la ao governo federal. O processo consiste em aprender e absorver, pouco a pouco, as etapas de fabricação de um produto. Primeiro, o Butantan recebia o imunizante pronto para conduzir a inspeção, controle de qualidade, rotulagem, embalagem e entrega. Com o tempo, assumia o envase, depois a formulação e, por fim, a produção dos três monovalentes. Hoje, o Instituto é responsável pela fabricação de 100% das doses que compõem a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, entregando 80 milhões de doses por ano ao Ministério da Saúde.
Esse tipo de estratégia possibilita a inovação por aprendizado. “Ao trazer um produto pronto e aprender tudo sobre ele, o Butantan cria competência para pensar fora da caixa e aprimorá-lo para, futuramente, desenvolver novos produtos a partir desse conhecimento. Um exemplo clássico desse modelo ocorreu com a China, que hoje é um país altamente inovador porque, no passado, funcionou como sítio de produção para outros países”, explica Cristiano.
Um dos frutos da expertise do Butantan em influenza é a vacina da gripe adjuvada, que conta com uma substância que potencializa a eficácia do imunizante, desenvolvida integralmente na instituição. A vacina se encontra em ensaio clínico de fase 3 e tem o objetivo de melhorar a proteção em pessoas acima de 60 anos, que naturalmente possuem imunidade reduzida e são mais suscetíveis a complicações da doença. Diante da recente emergência da gripe aviária, o Butantan também está desenvolvendo a vacina influenza aviária, atualmente em testes clínicos de fase 1/2, como forma de se preparar para uma eventual pandemia do vírus.

Vacina Influenza é hoje o carro-chefe do Instituto Butantan (Foto: José Felipe Batista)
Ao longo do século XXI, o Instituto passou a apostar em novas tecnologias, apoiado por programas como o de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), criado pelo governo federal em 2009. A iniciativa fomenta acordos entre instituições públicas e privadas para possibilitar a fabricação local de imunobiológicos e terapias avançadas, visando reduzir custos e facilitar a incorporação de tecnologias de ponta ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Uma dessas apostas são os anticorpos monoclonais (mAbs). Inseridos na fronteira da biotecnologia para o tratamento de doenças crônicas e câncer, os mAbs são medicamentos personalizados e altamente específicos, que agem direto nos alvos responsáveis pela doença. A fim de incorporar essa tecnologia, o Instituto inaugurou em 2020 sua fábrica de Produção de Anticorpos Monoclonais (PAM).
A primeira PDP de mAb do Butantan foi assinada no final de 2021 com a empresa Sandoz para produzir o Adalimumabe, destinado ao tratamento de doenças inflamatórias crônicas autoimunes, como artrite reumatoide, espondiloartrite e psoríase, além de doenças do trato gastrointestinal, como doença de Crohn e colite. A transferência tecnológica teve início em 2022 e, desde então, o Butantan entregou 1,9 milhão de unidades do medicamento.
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Equipamentos da fábrica de Produção de Anticorpos Monoclonais (Foto: José Felipe Batista)
Assim como a transferência tecnológica da vacina Influenza alavancou a inovação do Instituto na produção de vacinas, o Adalimumabe está abrindo as portas para a fabricação e desenvolvimento de outros medicamentos avançados. Em 2025, o Butantan firmou novas PDPs para a produção dos mAbs Pembrolizumabe e Bevacizumabe, indicados para diferentes tipos de câncer, e o Natalizumabe, para tratamento de esclerose múltipla recorrente-remitente. Além disso, por meio de parcerias de licenciamento e codesenvolvimento, o Butantan irá desenvolver e produzir anticorpos monoclonais inovadores destinados ao tratamento da Zika e da febre amarela.
O Instituto também se dedica à pesquisa e ao desenvolvimento de anticorpos monoclonais próprios. No Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Imunobiológicos (CeRDI), por exemplo, uma equipe multidisciplinar dirigida pela pesquisadora Ana Maria Moro investiga anticorpos monoclonais neutralizantes contra toxinas e vírus, como mAbs antitetânicos, anti-vírus Zika, anti-vírus da febre amarela selvagem e anti-vírus influenza. Mais recentemente, o grupo desenvolveu mAbs para os sorotipos da dengue, usados como reagentes para auxiliar nos testes de controle de qualidade da vacina.
A fim de modernizar a área de vacinas, outra aposta do Instituto é absorver a plataforma tecnológica de RNA mensageiro (mRNA), uma das mais avançadas atualmente na produção de imunizantes. A partir de uma PDP assinada com a farmacêutica Moderna, irá receber a transferência de tecnologia da vacina contra Covid-19. Recentemente, o Butantan também assinou um contrato com a empresa norte-americana Replicate Bioscience para desenvolvimento de vacinas de RNA autorreplicante, a nova geração de vacinas de mRNA.

Vista atual do parque fabril do Instituto Butantan. (Foto: Andre Ricoy)
Nos últimos 20 anos, enquanto absorvia em seu parque fabril produtos prontos que já haviam passado por aprovação regulatória, como a vacina Influenza e a vacina do HPV, o Butantan também se dedicou à capacitação em ensaios clínicos – abrindo caminho para que novos imunobiológicos desenvolvidos dentro da instituição saíssem da bancada e chegassem à população.
Por iniciativa de Isaias Raw, que via a importância de a instituição ter autonomia para testar a eficácia e segurança de seus produtos, o Butantan conduziu seu primeiro ensaio clínico no começo dos anos 2000. A pesquisa avaliou o surfactante pulmonar, candidato a tratamento para a Síndrome do Desconforto Respiratório do recém-nascido. Desde então, mais de 30 ensaios clínicos já foram coordenados pelo Instituto.
Foi esse aprendizado que possibilitou à instituição desenvolver a sua própria vacina da dengue, a Butantan-DV, a primeira em dose única do mundo. Entre 2016 e 2025, para dar conta de conduzir a fase 3 do estudo clínico com mais de 16 mil voluntários, o Instituto estabeleceu uma rede de 16 centros de pesquisa, distribuídos em 14 estados brasileiros. Com processo produtivo patenteado, o imunizante foi formulado e produzido integralmente pelo Butantan, a partir das quatro cepas atenuadas do vírus licenciadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

Butantan-DV é a primeira vacina da dengue em dose única no mundo (Foto: José Felipe Batista)
O processo de desenvolvimento da Butantan-DV foi desafiador: foram necessários mais de 50 experimentos e 17 receitas de formulação para chegar à combinação mais eficiente dos quatro vírus. O trabalho levou quatro anos para ser concluído e contou com uma equipe de mais de 50 colaboradores, liderados pela pesquisadora Neuza Frazatti Gallina, gerente de Desenvolvimento de Processos do Laboratório Piloto de Vacinas Virais.
A expertise adquirida durante o desenvolvimento da vacina da dengue também foi fundamental para que o Butantan pudesse fornecer uma resposta rápida durante a pandemia de Covid-19. Graças à rede de pesquisa clínica previamente estabelecida, o Instituto conduziu a fase 3 do ensaio clínico da CoronaVac em 2020, possibilitando o início da vacinação contra a doença no Brasil em janeiro de 2021. Durante a pandemia, a instituição também apostou na infraestrutura já instalada e na expertise tradicional em soros para desenvolver um soro anti-Covid, que chegou à etapa inicial de ensaios clínicos.
Hoje, o Butantan trabalha em novos estudos clínicos da vacina da dengue, voltada para aplicação em idosos; da vacina da gripe adjuvada, também para o público 60+; e da vacina da gripe aviária.
No pipeline, no âmbito das Doenças Tropicais Negligenciadas, o Instituto desenvolve uma vacina contra Zika, ainda em estágio inicial. A infecção pelo vírus durante a gravidez é a principal causa de microcefalia em recém-nascidos. Em desenvolvimento no Laboratório Multipropósito, dirigido pelo pesquisador Renato Astray, o imunizante utiliza a plataforma de vírus inativado, que é mais segura para aplicação em gestantes.

No Laboratório Multipropósito, cientistas do Butantan trabalham em vacina contra Zika (Foto: Renato Rodrigues)
“Foi Vital Brazil quem demonstrou, pela primeira vez, um dos principais conceitos básicos em Imunologia, o princípio da especificidade antigênica” (Osvaldo Augusto Sant’Anna, pesquisador científico do Butantan, em “Vital Brazil e as origens da imunologia: a caracterização da especificidade na resposta imune” [2015])
Entender como funciona o sistema imune é a base para estudar doenças e avaliar a eficácia e segurança de um produto durante um ensaio clínico. No Instituto Butantan, a imunologia é uma das principais áreas de pesquisa desde a época de Vital Brazil. Afinal, para enfrentar o problema dos acidentes ofídicos, era preciso compreender como o veneno agia, como o organismo se defendia e como produzir anticorpos purificados – os soros – para tratar o envenenamento. Da mesma forma, os estudos em imunologia eram fundamentais para o desenvolvimento e produção de vacinas.
Com essa soma de conhecimentos, o Butantan se transformou em um polo para formação de imunologistas na década de 1970, ao sediar o Curso de Imunologia da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). As aulas, ministradas por imunologistas globalmente reconhecidos, reuniam estudantes de todo o Brasil e da América Latina. O crescimento da área levou à fundação da Sociedade Brasileira de Imunologia, em 1972, que contou com a participação de pesquisadores do Butantan, como Ivan Motta, Otto Bier e Wilmar Dias da Silva.
Nos anos 2000, enquanto ganhava espaço no cenário da biotecnologia e se fortalecia como produtor de imunobiológicos, o Instituto Butantan também se dedicou a preencher outras lacunas da saúde pública, conduzindo pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos diagnósticos, tratamentos e vacinas para doenças infecciosas. As tecnologias mais promissoras foram patenteadas junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Um exemplo é a vacina BCG recombinante, desenvolvida no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Butantan pela pesquisadora Luciana Leite, que utiliza um adjuvante para potencializar a eficácia da vacina da tuberculose. O produto, em fase de desenvolvimento, visa atender à necessidade de um imunizante mais eficaz a longo prazo. Embora o BCG tradicional seja altamente efetivo em crianças, a imunidade tende a cair na vida adulta. No Brasil, foram registrados 84 mil novos casos de tuberculose em 2024, sendo a faixa etária de 20 a 34 anos a mais acometida pela doença, segundo o Ministério da Saúde.
A partir da mesma tecnologia da BCG recombinante, outro produto que vem sendo desenvolvido é a Onco rBCG, destinada ao tratamento do câncer de bexiga. O BCG tradicional é considerado padrão-ouro para tratar a doença, devido à sua capacidade de estimular o sistema imune com a chamada “imunidade treinada”. Com a versão recombinante, o objetivo dos pesquisadores é elevar a eficácia do tratamento. Ainda em fase de testes, o produto foi capaz de aumentar a sobrevida e reduzir significativamente os tumores de bexiga em modelos animais.
Outra patente do Butantan envolve o desenvolvimento de uma vacina para esquistossomose, que se enquadra nas Doenças Tropicais Negligenciadas e ainda não possui imunizante disponível. Desenvolvida pelo pesquisador Sergio Verjovski-Almeida, do Laboratório de Ciclo Celular, e pela pesquisadora Luciana Leite, a tecnologia é baseada em uma proteína quimérica capaz de oferecer proteção contra o Schistosoma mansoni, verme causador da doença.
Além da linha de vacinas e tratamentos, o Butantan também busca melhorar o diagnóstico de doenças subnotificadas. Prova disso são os testes para leptospirose, estudados por diferentes grupos de pesquisa do Instituto. No Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas, a pesquisadora Ana Lucia Tabet Oller do Nascimento investiga uma proteína quimérica, reunindo fragmentos de diferentes proteínas da bactéria Leptospira, capaz de viabilizar um diagnóstico mais barato, eficiente e que detecta a doença ainda na fase inicial.
Já no Laboratório de Bacteriologia e no Centro de Desenvolvimento de Anticorpos, as pesquisadoras Patricia Aniz e Roxane Piazza coordenam o desenvolvimento de dois testes rápidos para diagnóstico de leptospirose, um de detecção pela urina e outro pelo sangue. Os exames oferecem resultados em até 25 minutos, enquanto os testes padrão podem demorar dias.

“O Butantan é uma instituição de construtores, de fazedores. Soube se adequar ao tempo, às exigências regulatórias, à qualidade, e se tornou uma instituição dinâmica, que inova e se renova, mantendo seu compromisso com a saúde pública” (Ana Marisa Chudzinski-Tavassi)
Além de buscar respostas rápidas para problemas emergentes de saúde pública, o Butantan mantém o olhar para o futuro. Unindo as tecnologias mais avançadas do mercado ao seu tradicional conhecimento sobre venenos e imunologia, o Instituto também explora os segredos da biodiversidade para encontrar potenciais produtos para a saúde. Nesse processo, diferentes moléculas terapêuticas já foram identificadas em venenos de animais como serpentes, sapos, aranhas, escorpiões e lagartas.
No Centro de Excelência para Descoberta de Novos Alvos Terapêuticos (CENTD), criado em 2017, pesquisadores se dedicam ao estudo de toxinas de venenos e à identificação de novos alvos moleculares que podem levar ao desenvolvimento de medicamentos para doenças, como as inflamatórias e crônicas. Fruto do programa Centros de Pesquisa Aplicada (CPA) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o CENTD é uma parceria entre Butantan, FAPESP e a farmacêutica multinacional GSK.
Seu trabalho consiste em utilizar venenos e moléculas da biodiversidade como ferramentas para desenvolver novos produtos terapêuticos – como anti-inflamatórios e analgésicos. O objetivo é descobrir e validar em quais moléculas do organismo humano essas ferramentas atuam, ou seja, quais são os alvos moleculares que desencadeiam respostas para uma determinada doença.
“Pelas tecnologias de High-Throughput Screening [Triagem de Alto Rendimento] e bioinformática, conseguimos identificar o alvo molecular e comprovar que aquele gene é importante para controlar a doença. O passo seguinte é validar a informação, muitas vezes utilizando técnicas como CRISPR [edição gênica] e, a partir disso, desenhar um produto alvo-específico para tratamento”, explica a pesquisadora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, que coordena o centro.
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O conhecimento gerado pelo CENTD resultou no desenvolvimento de moléculas de fusão chamadas de pepticorpos – peptídeos (sequências de aminoácidos/fragmentos de proteínas) acoplados a porções de anticorpos. Como proteínas são facilmente degradadas pelo organismo, a produção de um medicamento baseado em peptídeos é um desafio. Para superar esse obstáculo, os pesquisadores trabalham para unir os peptídeos a fragmentos de imunoglobulinas, criando moléculas maiores que podem se manter por mais tempo no corpo e atuar no alvo de interesse. Com alvos moleculares específicos, os pepticorpos são uma promessa para tratamento de inflamações crônicas e dor, como as provocadas por doenças articulares. A iniciativa é uma parceria com as pesquisadoras do Laboratório de Biofármacos Ana Maria Moro e Tania Manieri.
Outra descoberta de colaboradores do centro foram os alvos moleculares envolvidos no desenvolvimento da pararamose, doença articular crônica causada pela lagarta pararama (Premolis semirufa). O problema acomete seringueiros na região amazônica, que frequentemente entram em contato com as cerdas da lagarta. Conduzido pela pesquisadora do Laboratório de Imunoquímica Denise Tambourgi, o trabalho pode ajudar no desenvolvimento de novas terapias para a doença.

Em seus mais de 30 laboratórios, para além das toxinas, o Butantan também faz descobertas a partir de outros elementos da biodiversidade brasileira. No Laboratório de Desenvolvimento e Inovação, por exemplo, os pesquisadores Ana Olívia Souza e Durvanei Augusto Maria encontraram uma molécula com potencial cicatrizante no fungo Exserohilum rostratum, da Caatinga, resultando no projeto de uma pomada capaz de curar feridas sem deixar queloide. Em fase pré-clínica, o produto está sendo testado em parceria com a startup BiotechnoScience Farmacêutica, que surgiu de iniciativa dentro da própria instituição.
Casos como o da pomada refletem outro caminho possível para a inovação, que consiste no licenciamento da tecnologia para que instituições parceiras possam desenvolver ou codesenvolver produtos. Essa é uma forma de levar adiante pesquisas e descobertas que não se enquadram totalmente no planejamento estratégico do Instituto, mas que apresentam potencial de se tornarem produtos e de trazerem benefícios para a saúde.
Seja no desenvolvimento próprio de pesquisas, produtos e ensaios clínicos, ou no aprendizado a partir de parcerias com a indústria, a inovação no Instituto Butantan pulsa diariamente dentro de seus laboratórios há 125 anos. Seu primeiro diretor, Vital Brazil, é considerado pelo INPI como um dos inventores mais renomados da história do Brasil. Em 2024, a mesma instituição reconheceu o Butantan como uma marca de alto renome – título dedicado a organizações que inspiram confiança na população e se destacam para além de sua área original de atuação. Ao dominar plataformas tradicionais e abrir espaço para receber novas tecnologias, o Butantan cria a base necessária para atingir o estado da arte na ciência e na saúde pública.
“Como as grandes árvores nascem de um pequeno embrião, cuja vida inicial, sempre precária, põe, não raro, em risco, o futuro do novo ser, assim as grandes instituições nascem, quase sempre, de uma ideia periclitante em meio adverso, e só pouco a pouco adquirem raízes (...) conquistando o direito de viver e produzir” (Vital Brazil em Memória Histórica do Instituto Butantan, 1941)
Referências
• Augusto Sant’Anna, Osvaldo. Vital Brazil e as origens da imunologia: a caracterização da especificidade na resposta imune. 2015. https://bibliotecadigital.butantan.gov.br/arquivos/38/PDF/8.pdf
• Dias da Silva, Wilmar. Tambourgi, Denise. Introdução da Imunologia no Brasil: uma breve história. Sociedade Brasileira de Imunologia. 2023. - https://sbi.org.br/wp-content/uploads/2023/09/Introducao-da-Imunologia-no-Brasil-Uma-breve-historia.pdf
• Brazil, Vital. Memória Histórica do Instituto Butantan. 1941.
• Canter, Henrique Moisés. 100 anos de Butantan. 2000.
Ciência, memória e diálogo: o legado da divulgação científica nos museus e laboratórios do Butantan



